Queloide: como é a retirada, o tratamento e os cuidados depois
O queloide pode ser tratado e retirado, mas tirar sozinho não basta. Aqui está o que diferencia o queloide de outras cicatrizes, como funcionam a infiltração, a cirurgia e a radioterapia, e o que muda no dia a dia depois da retirada, inclusive no treino.
O furo da orelha que virou uma bolinha dura. A cicatriz da cirurgia que cresceu além do corte. A espinha no peito ou nas costas que deixou um relevo que coça e dói. Muita gente chama tudo isso de queloide, e a primeira dúvida quase sempre é se dá para tirar.
Dá, mas a retirada sozinha não resolve. Segundo o consenso da Japan Scar Workshop, publicado em 2019, o queloide volta em 50% a 80% dos casos quando é só retirado com cirurgia, e esse número cai para 10% ou menos quando a cirurgia é seguida de radioterapia na primeira semana. Por isso o tratamento do queloide é um plano, e não um procedimento isolado.
O que é queloide e qual a diferença para a cicatriz hipertrófica?
Queloide é uma cicatriz que cresce além dos limites do machucado que a originou. A cicatriz hipertrófica também é alta, mas fica dentro dos limites do corte e tende a melhorar com o tempo.
As duas nascem de uma inflamação que continua ativa na camada mais profunda da pele, e por isso coçam, doem e ficam avermelhadas. Na prática, muitas lesões ficam no meio do caminho entre uma e outra, e o exame define como tratar.
Por que algumas pessoas têm queloide?
Porque a tendência é, em boa parte, da própria pele. O queloide é mais comum em pessoas negras e de origem asiática, e costuma ser mais leve em pessoas de pele clara.
Os gatilhos mais comuns são o furo de brinco, as espinhas e a foliculite no peito, nas costas e na mandíbula, as cirurgias, a vacina aplicada no braço na infância e as queimaduras. Até um machucado pequeno pode dar origem a um queloide em quem tem tendência.
A tensão sobre a pele também pesa. Regiões que se esticam com o movimento, como o peito, os ombros, as costas e a parte de cima do braço, formam mais queloide, e ele costuma crescer na direção em que a pele é puxada. Gravidez e pressão alta são outros fatores que podem piorar o quadro.
O que o tratamento consegue fazer?
Na maioria dos casos, controlar o queloide, mas sem garantia de que ele não volte.
O objetivo é deixar a cicatriz plana, macia e sem sintomas, e manter assim com acompanhamento. Lesões menores costumam responder melhor e com menos sessões, por isso vale tratar cedo, sem esperar o queloide crescer.
Como é o tratamento sem cirurgia?
O primeiro passo costuma ser a infiltração: um corticoide aplicado dentro do queloide com agulha fina, em sessões com intervalo definido. Ela amolece e achata a cicatriz e alivia a coceira e a dor relativamente rápido. Pode afinar a pele e a gordura ao redor e não é feita na gravidez.
Outros recursos entram junto, conforme o caso:
- Fitas e placas de silicone, que hidratam e diminuem a tensão sobre a cicatriz. Uma revisão de 20 ensaios sugere benefício, mas os estudos são de baixa qualidade, e o silicone funciona como parte do plano, não sozinho.
- Compressão com faixas, malhas ou peças próprias para cada região, que diminui o fluxo de sangue e a inflamação na cicatriz.
- Laser, que ajuda na vermelhidão e na coceira, principalmente em cicatrizes mais planas.
Como é a retirada do queloide?
A cirurgia retira a cicatriz e fecha a pele com o mínimo de tensão possível. Em geral, é feita em consultório, com anestesia local. Queloides muito grandes ou em áreas delicadas podem pedir outra técnica.
Sozinha, ela não basta. Sem um tratamento complementar, o queloide volta na maior parte dos casos, e às vezes maior do que era. Por isso a retirada vem acompanhada de infiltrações nas semanas seguintes ou de radioterapia nos primeiros dias, que no Brasil costuma ser feita como betaterapia, por um radioterapeuta.
A radioterapia não é indicada para crianças e é evitada sobre a tireoide e as mamas. O local também conta: o queloide do furo de brinco costuma voltar menos depois da retirada do que o do peito, dos ombros e das costas.
Depois da retirada, posso treinar?
Pode, mas não do jeito de antes logo de cara. A tensão que estica a cicatriz é um dos principais fatores para o queloide crescer e voltar.
O consenso japonês observa que quem repete um mesmo movimento que puxa a cicatriz, no trabalho braçal ou no esporte, tende a ter queloides mais difíceis de tratar, e recomenda ajustar esse hábito. Depois da cirurgia, a pele recupera só cerca de 80% da resistência por volta do terceiro mês.
Na prática, a volta à academia é gradual. Exercícios que esticam a área operada ficam para depois, como os de peito e de ombro quando o queloide estava no tronco, e o tipo de treino é combinado conforme o local. Nos meses seguintes, fitas ou placas de silicone sobre a cicatriz ajudam a diminuir a tensão. Com calor e suor, a área precisa ser lavada todos os dias, porque a umidade sob a fita pode favorecer fungos.
Quais cuidados ajudam depois da retirada?
Os cuidados dos meses seguintes pesam tanto quanto a cirurgia:
- Seguir o calendário de infiltrações ou de radioterapia combinado na consulta.
- Usar a fita ou a placa de silicone pelo tempo orientado, que costuma ser de meses.
- Evitar tensão sobre a cicatriz nos primeiros meses, no treino e no trabalho.
- Avisar logo se a cicatriz endurecer, coçar, doer ou começar a crescer de novo, porque tratar cedo costuma ser mais simples.
- Antes de qualquer cirurgia, furo ou tatuagem, avisar que tem tendência a queloide.
Quando procurar avaliação?
Vale agendar uma consulta quando aparece uma destas situações:
- A cicatriz cresceu além do corte, do furo ou da espinha que a originou.
- Ela coça, dói ou continua vermelha há meses.
- Um queloide já retirado começou a voltar.
- Você tem tendência a queloide e vai fazer uma cirurgia, um furo ou uma tatuagem.
Lesão que cresce rápido, sangra, forma ferida ou aparece sem nenhum machucado antes precisa de avaliação sem esperar. Alguns tumores de pele podem parecer queloide, e a biópsia esclarece.
A avaliação do queloide é feita pela médica Dra. Helena Ciacci, CRM MG 93658, nos consultórios de Varginha e Campo Belo. O exame confirma se a lesão é queloide, cicatriz hipertrófica ou outra lesão que só se parece com eles, considera o local, o tamanho, os sintomas e o histórico de cicatrizes, e afasta sinais que pedem biópsia.
A partir daí, o plano pode começar pela infiltração e pelos cuidados com a cicatriz ou incluir a retirada em consultório, com anestesia local, combinada a infiltrações ou à radioterapia, feita por radioterapeuta, com encaminhamento. O retorno ao treino e às atividades é combinado conforme o local da cicatriz.
Dúvidas comuns.
Pode voltar. Retirado só com cirurgia, ele volta na maior parte dos casos, por isso a retirada é combinada com infiltração ou radioterapia e com cuidados contra a tensão na cicatriz nos meses seguintes.
Arde e pode doer na hora, e a dor varia com a dureza da cicatriz. Anestésico local e agulha fina ajudam, e a aplicação começa pelas bordas, onde a cicatriz é mais macia.
Pode, com ajuste. Nos primeiros meses, vale evitar movimentos que esticam a área operada e proteger a cicatriz com fita ou placa de silicone. O momento e o tipo de treino são combinados conforme o local.
Não tira, mas ajuda. O silicone hidrata e diminui a tensão sobre a cicatriz e entra como parte do tratamento, junto com a infiltração ou depois da cirurgia.
Pode, mas o risco de formar um novo queloide no local é maior. Vale conversar antes, para pesar o risco e planejar a prevenção.
Não. Queloide é uma cicatriz benigna. O cuidado é outro: alguns tumores de pele podem parecer queloide, e lesão que cresce rápido ou surge sem machucado precisa de avaliação.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma consulta de avaliação dermatológica. A indicação de qualquer procedimento é individual, e a radioterapia depende da avaliação do radioterapeuta.
Fontes de referência: Ogawa R e colaboradores, Diagnosis and Treatment of Keloids and Hypertrophic Scars: Japan Scar Workshop Consensus Document 2018, Burns and Trauma, 2019. Núcleo de Avaliação de Tecnologias em Saúde do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Nota Técnica 125, Betaterapia para tratamento de queloide, 2014. Wolwacz A e colaboradores, Opções terapêuticas nas cicatrizes queloidianas, Revista Brasileira de Cirurgia Plástica, 2000.
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Dra. Helena Ciacci · Dermatologia · Varginha e Campo Belo · CRM MG 93658
