Hidradenite supurativa: o que é, onde aparece e como tratar
A hidradenite supurativa costuma passar anos sendo tratada como furúnculo. Aqui está como reconhecer a doença, onde ela aparece, o que piora as crises e como é o tratamento, da medicação ao procedimento que trata os túneis sob a pele.
O caroço na virilha que dói para andar. A axila que inflama, abre, solta secreção e, semanas depois, volta no mesmo lugar. Mais um ciclo de antibiótico para o que todo mundo chama de furúnculo, e a impressão de que o problema é falta de cuidado.
Pode ser hidradenite supurativa, uma doença inflamatória crônica da pele, também chamada de hidrosadenite ou acne inversa. Um levantamento populacional publicado em 2018 estimou que ela atinge cerca de 0,4% dos brasileiros, algo como 1 em cada 250 pessoas. E o nome costuma demorar a aparecer: num estudo com pacientes de 24 países, o diagnóstico levou mais de sete anos, em média.
O que é hidradenite supurativa?
É uma doença inflamatória crônica que começa no folículo, a pequena bolsa de onde nasce o pelo, nas áreas de dobra da pele. Ela forma caroços profundos e doloridos que podem virar abscessos, abrir e drenar secreção, às vezes com sangue e mau cheiro.
Com as crises repetidas, a inflamação pode cavar túneis sob a pele, que ligam uma lesão à outra e continuam drenando, e deixar cicatrizes, algumas em forma de corda. Cravos nas mesmas áreas também fazem parte do quadro.
A doença alterna fases de crise e de calmaria. Ela não passa de uma pessoa para outra e não é causada por falta de higiene.
Onde a hidradenite aparece?
Nas dobras do corpo, onde há pelos, suor e atrito. Os locais típicos são as axilas, as virilhas, a parte interna das coxas e a região genital e pubiana. Também aparece entre as nádegas, ao redor do ânus e embaixo e entre as mamas. Com menos frequência, no rosto, no pescoço e nas costas.
Numa pesquisa com 390 pacientes brasileiros, publicada em 2019, a virilha estava atingida em 76% dos casos, as axilas em 75%, a região anogenital em 44% e as mamas em 32%. Muitos tinham lesões em mais de um lugar.
O padrão muda com o sexo. Nas mulheres, predominam axilas, virilhas e mamas. Nos homens, são mais atingidas as nádegas, a região ao redor do ânus, a nuca e a área atrás das orelhas. No Brasil, a doença atinge homens e mulheres em proporção parecida, com leve predomínio feminino.
Por que ela aparece?
A causa exata ainda não é totalmente conhecida, mas o processo começa no folículo. Ele entope, se rompe sob a pele, e o sistema de defesa reage com uma inflamação desproporcional, que custa a apagar e volta a acender no mesmo lugar.
Alguns fatores aumentam a tendência e pesam nas crises:
- A herança genética. Cerca de 1 em cada 3 pessoas com a doença tem outros casos na família.
- Os hormônios. A doença costuma começar depois da puberdade, muitas vezes ainda na adolescência, pode piorar perto da menstruação e tende a ficar mais leve depois da menopausa.
- O cigarro, um dos fatores mais ligados à hidradenite.
- O excesso de peso. Segundo o consenso brasileiro, mais da metade dos pacientes tem obesidade.
- O atrito, o calor e o suor, que pioram com roupas apertadas.
Bactérias da própria pele podem estar presentes nas lesões, mas a hidradenite não é uma infecção que se pega. Por isso esfregar a pele ou usar antisséptico forte não trata a doença e ainda pode irritar.
Como saber se é hidradenite, e não furúnculo?
Pelo padrão. O diagnóstico é feito no exame da pele e se apoia em três pontos, descritos no protocolo do Ministério da Saúde:
- O tipo de lesão: caroços profundos e doloridos, abscessos, túneis que drenam, cravos e cicatrizes.
- O local: axilas, virilhas, região genital e ao redor do ânus, nádegas e dobras das mamas.
- A repetição: lesões que voltam mais de duas vezes em seis meses.
O furúnculo, que em muitas cidades de Minas se chama leicenço, é uma infecção aguda de um só folículo. Costuma melhorar depois de drenar e não forma túneis. Quando os caroços voltam sempre nas mesmas dobras, deixam cicatriz ou se comunicam por baixo da pele, a suspeita passa a ser hidradenite.
O exame também define o estágio da doença, pela classificação de Hurley, que orienta o tratamento:
- Estágio 1: caroços e abscessos que vêm e vão, sem túneis e sem cicatrizes.
- Estágio 2: lesões que voltam e já formaram túneis e cicatrizes, em pontos separados.
- Estágio 3: túneis ligados entre si e lesões tomando uma região inteira, como uma axila ou uma virilha.
Túneis e cicatrizes costumam não desaparecer só com remédio. Por isso reconhecer a doença cedo faz diferença: nas fases iniciais, o tratamento busca evitar que eles se formem.
Como é o tratamento?
Depende do estágio e da fase da doença, e quase sempre combina mais de uma frente. O objetivo é diminuir as crises, aliviar a dor e evitar que se formem novos túneis e cicatrizes.
Na crise, um caroço muito inflamado pode receber infiltração, um corticoide aplicado dentro da lesão com agulha fina. Segundo o consenso brasileiro, a resposta costuma começar em dois a três dias. Ela não é feita quando há infecção no local.
Nas formas leves, entram antibióticos de uso na pele. Nas moderadas, antibióticos por boca, em ciclos de 10 a 12 semanas, e não só por alguns dias a cada crise, porque na hidradenite eles agem também como anti-inflamatórios. Em algumas mulheres, tratamentos hormonais entram no plano.
Nas formas moderadas a graves que não respondem aos antibióticos, entram os imunobiológicos, remédios aplicados por injeção que bloqueiam pontos específicos da inflamação. Há mais de um aprovado para a doença no Brasil. Eles pedem exames antes de começar, como a investigação de tuberculose, e acompanhamento regular.
No SUS, o protocolo clínico da doença, publicado pelo Ministério da Saúde em 2019, inclui um imunobiológico para adultos com doença moderada a grave que não responderam aos antibióticos.
O controle da dor e os curativos fazem parte do tratamento desde o começo.
Quando a hidradenite precisa de cirurgia?
Quando os caroços voltam sempre no mesmo lugar ou já formaram túneis. O remédio controla a inflamação, mas os túneis costumam precisar de procedimento.
Drenar alivia a dor de um abscesso cheio, mas o efeito é passageiro: segundo uma revisão espanhola publicada em 2025, a lesão volta em quase todos os casos.
O destelhamento é feito em consultório, com anestesia local. A pele que cobre o nódulo ou o túnel é retirada, o interior é limpo, e a ferida cicatriza aberta, sem pontos, nas semanas seguintes. Num estudo holandês com 88 lesões tratadas assim, 83% não voltaram no mesmo lugar em cerca de três anos de acompanhamento.
Quando a doença toma uma região inteira, com muitos túneis ligados, a indicação costuma ser a retirada ampla da área, feita em hospital, com encaminhamento ao cirurgião.
Cirurgia e remédio não competem: nas formas moderadas e graves, costumam andar juntos. A depilação a laser pode entrar como complemento, porque age sobre o folículo, onde a doença começa.
Preciso emagrecer ou parar de fumar antes de tratar?
Não. O tratamento começa já, e parar de fumar e perder peso, quando há excesso, entram como parte dele.
Num estudo europeu publicado em 2014, a remissão, o período sem sinais de atividade da doença, foi relatada por 40% de quem não fumava e por 29% dos fumantes. Entre quem não tinha obesidade, foram 45%, contra 23% entre quem tinha.
No dia a dia, alguns cuidados diminuem o atrito e a irritação:
- Usar roupas folgadas e tecidos que respirem, evitando peças sintéticas apertadas nas áreas afetadas.
- Lavar com sabonete suave, usando as mãos, sem bucha e sem esfregar.
- Não espremer nem furar os caroços em casa.
- Evitar depilação com cera nas áreas afetadas e, se usar lâmina, tomar cuidado para não cortar a pele.
- Proteger as lesões que drenam com curativo absorvente, que não grude na ferida.
Quando procurar avaliação?
Vale agendar uma consulta quando aparece uma destas situações:
- Caroços doloridos que voltam nas axilas, nas virilhas, nas nádegas ou embaixo das mamas, mais de duas vezes em seis meses.
- Lesões que abrem, drenam secreção e deixam cicatriz ou um caminho por baixo da pele.
- Vários ciclos de antibiótico para furúnculos que sempre voltam no mesmo lugar.
- Dor, secreção ou mau cheiro que atrapalham o trabalho, o sono, o exercício ou a vida íntima.
Febre, vermelhidão que se espalha rápido ao redor da lesão, dor muito forte ou mal-estar pedem atendimento no mesmo dia, em serviço de urgência. Ferida antiga que muda de aspecto, sangra com facilidade ou não cicatriza também precisa de avaliação sem demora.
A avaliação da hidradenite supurativa é feita pela médica Dra. Helena Ciacci, CRM MG 93658, nos consultórios de Varginha e Campo Belo. O exame identifica o tipo de lesão, as áreas atingidas e o estágio da doença, e separa a hidradenite de furúnculo, cisto e pelo encravado. Quando há dúvida, pode incluir ultrassonografia, cultura ou biópsia.
A partir daí, o plano pode combinar medicação, infiltração na crise e cuidados com a pele e os curativos. O destelhamento é feito em consultório, com anestesia local, e a retirada ampla, feita em hospital, é encaminhada. Quando o imunobiológico é indicado, a consulta orienta os exames e o pedido, inclusive pelo SUS.
Muita gente adia a consulta por constrangimento com o local das lesões ou com o odor. A conversa é sobre a doença, sem julgamento, e o exame é feito com a discrição que essas áreas pedem.
Dúvidas comuns.
Não. É uma doença crônica, que alterna crises e períodos de calmaria. O tratamento busca diminuir as crises, aliviar a dor e evitar túneis e cicatrizes, e há quem passe longos períodos sem lesões ativas.
Não. Ela não passa de uma pessoa para outra, nem pelo contato com a pele, por toalhas, piscina ou relação sexual. É uma inflamação do folículo do pelo, e não uma infecção que se pega.
Não. Espremer ou furar em casa machuca a pele e pode piorar a inflamação. A drenagem feita pelo médico alivia um abscesso cheio e dolorido, mas a lesão tende a voltar, e por isso vem junto com o tratamento da doença.
Não há recomendação para esse uso. Leite de magnésia, melaleuca e babosa circulam muito entre pacientes nas redes sociais, como mostrou um estudo brasileiro de 2023. Nenhum deles faz parte do consenso da Sociedade Brasileira de Dermatologia nem do protocolo do Ministério da Saúde.
É raro. O risco é de um tipo de câncer de pele, o carcinoma espinocelular, em lesões antigas e extensas, principalmente nas nádegas e ao redor do ânus. É descrito sobretudo em homens, depois de muitos anos de doença, e por isso ferida antiga que muda de aspecto precisa de avaliação.
Sim. O protocolo do Ministério da Saúde prevê antibióticos e, para adultos com doença moderada a grave, um imunobiológico. Em Minas Gerais, o primeiro pedido pode ser feito pela Farmácia Digital do estado, com laudo médico, receita e exames, e o remédio é retirado na farmácia indicada para o município.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui uma consulta de avaliação dermatológica. A indicação de medicamentos e procedimentos é individual, e a retirada ampla depende da avaliação do cirurgião.
Fontes de referência: Magalhães RF e colaboradores, Consenso sobre o tratamento da hidradenite supurativa, Sociedade Brasileira de Dermatologia, Anais Brasileiros de Dermatologia, 2019. Ministério da Saúde, Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hidradenite Supurativa, Portaria Conjunta nº 14, 2019. Ianhez M e colaboradores, Prevalence of hidradenitis suppurativa in Brazil: a population survey, International Journal of Dermatology, 2018. Tavora IG e colaboradores, Clinical manifestations and quality of life in hidradenitis suppurativa patients, Anais Brasileiros de Dermatologia, 2019. Saunte DM e colaboradores, Diagnostic delay in hidradenitis suppurativa is a global problem, British Journal of Dermatology, 2015. Kromann CB e colaboradores, Risk factors, clinical course and long-term prognosis in hidradenitis suppurativa, British Journal of Dermatology, 2014. van der Zee HH e colaboradores, Deroofing: a tissue-saving surgical technique for the treatment of mild to moderate hidradenitis suppurativa lesions, Journal of the American Academy of Dermatology, 2010. Mateu-Arrom L e colaboradores, Surgical approach to hidradenitis suppurativa, Actas Dermo-Sifiliográficas, 2025. Bellei EA e colaboradores, Navigating the multidimensional impact of living with hidradenitis suppurativa, Dermatology and Therapy, 2023. Gierek M e colaboradores, Hidradenitis suppurativa and squamous cell carcinoma, Advances in Dermatology and Allergology, 2023. British Association of Dermatologists, Hidradenitis suppurativa, folheto ao paciente, 2025. American Academy of Dermatology, Hidradenitis suppurativa: self-care.
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Dra. Helena Ciacci · Dermatologia · Varginha e Campo Belo · CRM MG 93658
